Kota Rifula: o poder da ancestralidade (31/31)

No último dia de julho, ainda estou cheia de vontade de contar histórias de centenas de mulheres, mas vou ter que concluir o #julhodaspretas. Para isso, trouxe mais uma biografia que não estava registrada na internet, como uma homenagem àquelas que vêm sendo silenciadas, que não têm suas histórias registradas, mas que merecem todo reconhecimento por diversas conquistas no cotidiano. No dia 31 dos 31 dias do #jullhodaspretas, trago a biografia de Ana Semião – conhecida como Kota Rifula (nome africano designado por sua posição no Candomblé): mulher negra, trabalhadora, feminista, periférica e do candomblé.



A juventude física e o papo leve não revelam que Kota Rifula é uma senhora de 75 anos. A leveza e alegria com que ela conta suas histórias é contagiante. Seu cabelo de dreads naturais mostram que ela é uma mulher com muita propriedade de sua história e que tem muito para nos ensinar.

Kota tem uma importante atuação no movimento de trabalhadoras domésticas e de mulheres negras nacionalmente. Nascida como Ana Semião, em 11 de junho de 1942, em Passos, no interior de Minas Gerais, ela vem construindo a luta pelos direitos das empregadas domésticas e das mulheres a cerca de 30 anos em Campinas, no interior de São Paulo.

A história de Kota Rifula em Campinas começa quando, com a morte dos pais, ela e as irmãs saem de Minas Gerais para trabalhar em serviços domésticos. Elas vivem uma história muito parecida àquelas de tantas outras garotas negras e que ainda se proliferam Brasil afora: elas vêm “morar” com uma família e são responsáveis pelo cuidado com a casa.  No caso de Kota Rifula, ela tinha apenas 10 anos de idade quando vem com uma família para São Paulo e vive como trabalhadora doméstica até os 27 anos de idade.



Do serviço doméstico, ela sai para o casamento. A história de seu casamento é contada de forma feliz. Ela revela que seu marido foi um bom companheiro, bom pai e muito trabalhador. Eles tiveram 6 filhos, apesar da morte de 3 deles. Além da morte dos filhos, Kota Rifula teve que lidar com o assassinato do companheiro. Após ficar viúva, ela não se casa novamente, mas, segundo ela, “namorou muito” a vida toda. Com a viuvez, ela retoma as atividades como trabalhadora doméstica, agora aliada à militância política. 

Por influência da irmã, Regina Simião (outra importante preta que pretendo fazer a biografia), ela se aproxima do Sindicato das Trabalhadoras Domésticas de Campinas, que foi o primeiro sindicato a organizar as trabalhadoras domésticas no Brasil. Sua intervenção em defesa das trabalhadoras domésticas é histórica. Em 1997, Kota Rifula ajudou a fundar e foi a primeira presidente da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (FENATRAD).

Ainda na década de 1990, Kota Rifula filia-se ao Partido dos Trabalhadores, permanecendo filiada até os dias atuais. Ela acha fundamental organizar-se em um partido de esquerda, principalmente quando consideramos os retrocessos do momento atual. 

Além da atuação no sindicato e partido, faz parte do FECONEZU (organização quilombola). A participação de forma democrática de homens e mulheres, com divisão de tarefas e a construção coletiva fazem com que o FECONEZU seja identificado por ela como sua principal atuação política.

Na década de 2000, já com mais de 60 anos, descobre o Candomblé e resolve se dedicar a ele. Sob a orientação de Mãe Dango, Ana Simeão renasce através de sua iniciação à religião e começa a responder por seu nome africano. Na mesma década, ela inicia sua atuação como Promotora Legal Popular, onde se aproxima ainda mais da luta feminista. O feminismo é um posicionamento que Kota Rifula faz questão de reafirmar como fundamental para as mulheres negras. Ela diz ser impossível transformar a sociedade sem o feminismo.


Antes de terminar a conversa Kota fez questão de falar do sucesso dos 3 filhos e da neta, já iniciada na religião. Duas mulheres e um homem que enchem ela de orgulho. Pra ela, eles são a prova de que as mulheres negras estão vencendo suas batalhas, afinal, há alguns anos, uma empregada doméstica não poderia sonhar em ter filhos formados em universidade pública e concursados. Kota não só sonhou como pode ver isso acontecer em sua própria casa. 

Conversar com Kota Rifula é ver a vida em movimento. Ela transmite uma confiança na mudança e no poder das mulheres que te contagia. Ela é uma daquelas mulheres que fazem com que tenhamos certeza de que é necessário e possível mudar o mundo.  Kota Rifula, obrigada por existir. Sua existência mostra o poder da ancestralidade!

VIVA KOTA RIFULA
VIVA AS MULHERES NEGRAS
  

Foram 31 dias de homenagens às mulheres negras. Cada biografia resgatada foi um resgate pessoal. Conhecer a história de vida destas mulheres foi como reconstituir minha própria história ou da minha mãe e das minhas tias. Temos em comum histórias de solidão, fome, violência... mas, de muito trabalho, luta e solidariedade. Atravessamos o oceano separadas, mas estamos nos reencontrando pouco a pouco, recontando histórias e memórias apagadas. Com a história de Kota Rifula, aproveito para anunciar que estamos fazendo parte de um projeto maior de registro de biografias de mulheres negras que têm construído nossa existência com luta e resistência, mas que estão anônimas. Depois de contar tantas histórias maravilhosas, ainda tive a oportunidade de terminar o mês nos braços de mulheres negras no festival Latinidades. Prometo que farei um relato especial sobre esta atividade. Mas, posso dizer que o mês de julho de 2017 foi marcante, renovador e encorajador. 
Viva as mulheres negras! Viva as mulheres negras das américas e do Caribe!

Rosa Parks: "eu estava cansada de ceder" (30/31)



No penúltimo dia do #julhodaspretas - sim, já estou ficando triste e arrasada - vamos falar de uma preta que se tornou símbolo da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos da América: Rosa Parks. Ela fica famosa, quando, em 1º de dezembro de 1955, recusa-se a ceder o seu lugar no ônibus a um homem branco. Ela se torna o estopim do movimento que foi denominado boicote aos ônibus de Montgomery e posteriormente viria a marcar o início da luta antissegregacionista. Conhecer sua história é entender o que estava por trás deste ato que foi um marco histórico.

Rosa Parks nasceu Rosa Louise McCauley em Tuskegee, Alabama, em 4 de fevereiro de 1913, filha de uma professora e um carpinteiro. Ela foi uma criança com a saúde frágil, tinha frequentes crises de amigdalite. Quando seus pais se separaram, ela se mudou com a mãe para Pine Level, logo abaixo da capital do estado, Montgomery. Ela cresceu em uma fazenda com seus avós maternos, mãe e irmão mais novo, Sylvester. Todos eles eram membros da Igreja Episcopal Metodista Africana (AME), instituição negra independente fundada por negros livres na Filadélfia, no início do século XIX

Rosa frequentou escolas rurais até a idade de onze, depois foi para o Alabama State Teachers College para negros, mas teve que abandonar os estudos cuidar de sua avó e depois de sua mãe, depois que eles ficaram doentes. 

Em torno da virada do século 20, os antigos estados confederados adotaram novas constituições e leis eleitorais que efetivamente excluíam os eleitores negros e, no Alabama, muitos eleitores brancos pobres também. As empresas de ônibus e trem aplicavam políticas de assentos com seções separadas para negros e brancos. O transporte de ônibus escolar não estava disponível em qualquer forma para escolares negros no Sul, e a educação negra sempre estava subestimada.


Repetidamente intimidada por crianças brancas em seu bairro, Parks muitas vezes teve que lutar fisicamente com elas. Ela disse mais tarde que "até onde eu me lembro, nunca poderia pensar em aceitar abusos físicos sem alguma forma de retaliação". 

Em 1932, Rosa se casou com Raymond Parks, um barbeiro de Montgomery. Ele era membro de uma associação de negros que na época estava coletando dinheiro para apoiar a defesa dos Scottsboro Boys - um grupo de homens negros acusados ​​falsamente de estuprar duas mulheres brancas. Rosa ocupou inúmeros empregos, que vão desde trabalhadora doméstico até assistente de hospital. Por insistência do marido, ela terminou seus estudos de ensino médio em 1933, época em que menos de 7% dos afro-americanos tinham um diploma do ensino médio.

Em dezembro de 1943, Parks tornou-se ativa no Movimento dos Direitos Civis, ingressou no grupo em que o marido já militava. Em 1944, na sua qualidade de secretária do grupo, ela investigou o estupro coletivo de Recy Taylor, uma negra de Abbeville, Alabama. Rosa e outros ativistas dos direitos civis organizaram o "Comitê para a Justiça Equitativa para a Sra. Recy Taylor", lançando o que o Defensor de Chicago chamou de "a campanha mais forte para a igualdade de justiça a ser vista em uma década". Embora nunca tenha sido membro do Partido Comunista, ela participou de encontros com o marido.


Em agosto de 1955, o adolescente negro Emmett Till foi brutalmente assassinado depois de ter paquerado uma mulher branca enquanto visitava parentes no Mississippi. Em 27 de novembro de 1955, quatro dias antes de subir no ônibus, Rosa Parks participou de uma reunião de massa na Igreja Batista Dexter Avenue em Montgomery que abordou este caso, bem como os recentes assassinatos dos ativistas George W. Lee e Lamar Smith. O apresentador principal foi T. R. M. Howard, um líder negro de direitos civis do Mississippi que liderou o Conselho Regional de Liderança Negra. Howard trouxe notícias da recente absolvição dos dois homens que assassinaram Till. Parks estava profundamente triste e irritada com a notícia, particularmente porque o caso de Till ganhara muito mais atenção do que qualquer dos casos em que ela e sua organização haviam trabalhado.

O sistema de segregação de lugares no transporte já vinha sendo alvo de protestos dos negros, mas nada havia mudado. Em Montgomery, as primeiras quatro filas de assentos em cada ônibus eram reservadas para brancos. Pessoas negras deveriam sentar-se na parte traseira dos ônibus, local onde haviam poucos lugares, uma vez que 75% de quem utilizava os ônibus eram pessoas negras. Assim, elas podiam sentar-se nas fileiras do meio até a seção branca preenchida. Se mais pessoas brancas precisassem de assentos, pessoas negras deveriam ir para a parte traseira, ou ficar em pé ou, se não houvesse espaço, sair do ônibus! Ao entrar em um ônibus, se já houvessem pessoas pessoas brancas sentadas na frente, as pessoas negras deveriam entrar pela frente, pagar a tarifa e depois desembarcar e voltar a entrar pela porta de trás.

Um dia em 1943, Parks embarcou num ônibus e pagou a tarifa. Ela então se mudou para o assento, mas o motorista James F. Blake disse-lhe para seguir as regras da cidade e entrar novamente no ônibus da porta dos fundos. Quando Parks saiu do veículo, Blake saiu sem ela. Parks esperou o próximo ônibus, determinada a nunca mais andar com Blake. Ou seja, ela já vinha passando os mais diversos constrangimentos a anos. 

Depois de trabalhar o dia todo, Parks embarcou no ônibus da Cleveland Avenue, às 6h da quinta-feira, 1 de dezembro de 1955, no centro de Montgomery. Ela pagou sua tarifa e sentou-se em um assento vazio na primeira fila de assentos traseiros reservados para pessoas negras. Perto do meio do ônibus, ela estava bem longe dos assentos reservados para passageiros brancos. Inicialmente, ela não percebeu que o motorista de ônibus era o mesmo homem, James F. Blake, que a deixara na chuva em 1943. Enquanto o ônibus viajava ao longo de sua rota regular, todos os assentos brancos no ônibus foram preenchidos. Foi quando o motorista notou que dois ou três passageiros brancos estavam de pé, exigiu que quatro passageiros negros cedessem seus lugares para os passageiros brancos. Três passageiros negros se levantaram e Rosa Parks se recusou a fazê-lo. Em sua biografia ela declara que pensou em Emmett Till quando se recusou a levantar. Blake disse: "Por que você não se levanta?" Parks respondeu: "Eu não acho que eu deveria ter que me levantar". Blake chamou a polícia para prender Parks. Ela foi presa! Parks foi acusada de uma violação do Capítulo 6, Seção 11, Lei de segregação do código da cidade de Montgomery, apesar de tecnicamente, ela não tivesse tomado um assento branco. 

Em sua autobiografia, My Story, ela disse:

"As pessoas sempre dizem que não desisti do meu assento porque estava cansada, mas isso não é verdade. Eu não estava cansada fisicamente, nem mais cansada do que costumava estar no final de um dia útil. Eu não era velha, embora algumas pessoas tenham uma imagem de mim como sendo idosa então. Eu tinha quarenta e dois anos. Não, só tinha um cansaço, eu estava cansado de ceder."

A comunidade decide por um boicote aos ônibus de Montgomery. O Conselho Político das Mulheres foi o primeiro grupo a endossar oficialmente o boicote. No domingo, 4 de dezembro de 1955, os planos para o boicote aos ônibus de Montgomery foram anunciados em igrejas negras na área, e um artigo de primeira página no Montgomery Advertiser ajudou a difundir a palavra. Em uma reunião da igreja naquela noite, os participantes concordaram por unanimidade para continuar o boicote por mudanças no transporte.

No dia seguinte, Parks foi julgada acusada de conduta desordenada e violando uma ordenança local. O julgamento durou 30 minutos. Depois de ser considerado culpada, pagar multa e os custos judiciais, Parks apelou a sua condenação e impugnou formalmente a legalidade da segregação racial. O boicote no dia do julgamento de Parks foi vitorioso, mesmo com chuva, a comunidade negra aderiu fortemente ao movimento. A partir de então, a população negra cria o "Montgomery Improvement Association" (MIA) para continuar a organização do boicote. Seus membros são eleitos e como seu presidente foi eleito o jovem Martin Luther King Jr.

O boicote de ônibus em Montgomery continuou por 381 dias. Dezenas de ônibus públicos ficaram ociosos há meses, prejudicando gravemente as finanças da companhia de trânsito, até que a cidade revogou sua lei que exigia segregação em ônibus públicos após a decisão do Supremo dos EUA em Browder v. Gayle de que era inconstitucional. 

A prisão de Parks foi o catalisador da organização dos negros, primeiro em Montgomery e depois no restante do país. Após ser solta, ela passa a ser ameaçada de morte, perde o emprego e se vê forçada a sair da cidade. Começa a viver em Hamptom, mas continua militando a favor dos direitos civis por muitos anos. Ela ganha diversos prêmios e homenagens por sua atuação a favor dos direitos civis.

Parks residiu em Detroit até morrer de causas naturais aos 92 anos em 24 de outubro de 2005, em seu apartamento no lado leste da cidade. Ela e seu marido nunca tiveram filhos. Seu enterro e funeral tiveram as honrarias de um chefe de estado. No vídeo abaixo, podemos ver o discurso do - ainda senador - Barack Obama prestando homenagens à Rosa Parks em seu funeral.


VIVA ROSA PARKS!
VIVA AS MULHERES NEGRAS!

Magali Mendes: "eu só sei trabalhar pelo coletivo" (29/31)

A proposta do #julhodaspretas da Central das Divas é dar visibilidade às mulheres pretas. Mostrar que temos história própria. Que nossa luta tem sido feita por mulheres de verdade, de carne e osso. Precisamos conhecer seus rostos, nome e sobrenome. Assim, temos conseguido mostrar mulheres que já tem algum registro biográfico na internet, mas achamos que é possível e necessário fazer novos registros. Dar visibilidade à mais mulheres negras que tem lutado de forma anonima, mas que têm mudado a realidade de tantas outras mulheres negras e suas comunidades. Vou apresentar e registrar, pela primeira vez na internet, a biografia de algumas mulheres que admiro e que tem contribuído para a luta de mulheres negras. 

Uma destas mulheres é a ativista, do movimento negro e sindical, Magali Mendes que vive a muitos anos em Campinas, no interior de São Paulo, e é a 29ª mulher negra homenageada pela Central das Divas no nosso #julhodaspretas. Para registrar a biografia de Magali, pude conversar com ela comendo uma pizza e foi tão simples que não dava nem para acreditar que alguém tão fascinante e importante para a luta das mulheres negras estava ali ao meu alcance. Cada história que ela conta, você se envolve tanto que nem se lembra mais do que perguntou no inicio. Na conversa, eu aprendi tanto, sobre tanta coisa que foi até difícil ir para casa depois. Conversa de preta, das boas! Sorte a minha.


Magali Mendes nasceu em Jundiaí, uma cidade vizinha a Campinas, em 10/01/1963. Magali é a mais nova de 5 filhos. Filha de um metalúrgico e de uma dona de casa, formou-se em Técnica Agrícola e gostaria de continuar seus estudos em Agronomia. Mas, sua história é semelhante às histórias de tantas outras mulheres negras. Magali não continuou seus estudos em Agronomia, pois sua família não tinha condições de bancar mais anos de estudos. Portanto, ela precisava trabalhar.


Concursada na UNICAMP, Magali se muda para a cidade de Campinas onde fica por 35 anos. Sua carreira como funcionária da UNICAMP começa no cargo de jardineira. Esta era uma função exercida majoritariamente exercida por homens e foi um espaço de opressão para as mulheres que dividiam com eles as tarefas. Magali relata que sofreu diversas pressões machistas enquanto trabalhava neste setor. É quando ela se aproxima do Sindicato dos Trabalhadores da UNICAMP, se filiando e participando ativamente das atividades do Sindicato, tendo participado da gestão do ano.... Magali se aposenta como funcionária da UNICAMP, tenso passado pelo Instituto de Ciências Humanas e CIS Guanabara.

Durante o período em que trabalhou na UNICAMP, Magali cursou história na PUC. Ao ser questionada sobre os motivos que a levaram buscar uma formação superior, Magali diz que fazer um curso superior era importante, mas não foi um sonho. Ela acredita que temos que garantir possibilidades de que o curso superior seja uma escolha e não a única opção de garantia de vida para os jovens, especialmente negros e negras. Ela acredita que existem outras possibilidades para além da formação superior, mas que elas só poderão ser aproveitadas quando forem uma escolha possível para quem quiser e não um privilégio.

Apesar de sua atuação no sindicalismo, a principal atuação de Magali foi em defesa dos direitos de negros e negras, tendo participado de importantes atividades dos movimentos negros, especialmente o FECONEZU, uma organização quilombola. Magali atua no FECONEZU desde os 17 anos de idade, quando teve a oportunidade de ajudar a organizar um encontro da entidade na região de Jundiaí. A partir do encontro, ela e outros jovens fundaram o Grupo Afrocultural de Jundiaí.

Na década de 1990, Magali participa da Comissão de Mulheres Negras de Campinas e da fundação da Casa Laudelina na mesma cidade. A intervenção de Magali na defesa dos direitos das mulheres negras a levou até o II Encontro Afro Caribenho de Mulheres, em Costa Rica (2011). Este encontro aconteceu com o objetivo de ampliar as pautas do I Encontro e incluir as mulheres afrocaribenhas nelas. No ano de 2015, Magali Mendes participou da fundação da Frente de Mulheres Negras de Campinas que impulsionou a caravana de Mulheres Negras a Marcha de Mulheres Negras, em Brasília.

Quando perguntada se é feminista Magali confirma sem pensar: SOU FEMINISTA! Ela diz que desde sempre viveu o feminismo, ainda que não tratasse por este nome as relações que sempre foram estabelecidas em sua casa e bairro e que orientaram sua vida. É a partir destes posicionamentos feministas que Magali constrói o que ela identifica como sua principal atuação: as PROMOTORAS LEGAIS POPULARES, onde ela atua desde 1996. Ela identifica que através de sua atuação nas PLP's ela pode se aproximar de verdade dos problemas que as mulheres periféricas enfrentam em seu cotidiano, podendo apoiá-las e instrumentalizá-las para que possam, elas mesmas, ser agentes de transformações em suas casas, comunidades e na sociedade.

Para Magali Mendes, a principal tarefa dos movimentos de mulheres negras no momento atual é renovar o movimento, oxigenar, trazer mais mulheres para a luta. Para ela, temos sido vitoriosas. Ver os olhos de  Magali brilhando de esperança ao falar da nova geração de mulheres que tem abraçado a luta das mulheres negras me encheu de amor e vontade de continuar. Sim, Magali Mendes, você é uma Griô.

VIVA MAGALI MENDES!
VIVA AS MULHERES NEGRAS!


Agradecimento especial a Daniele Diniz, que contribuiu lindamente para este post!


Chimamanda Ngozi Adichie e o perigo da história única (28/31)

Ela já era mundialmente reconhecida como um dos maiores talentos literários de sua geração e acabou se popularizando quando Beyoncé escolheu um trecho de sua palestra “Sejamos Todos Feministas” (que foi transformada também em livro) para usar na música e no clipe “Flawless”, de seu álbum homônimo de 2013. Estamos falando de Chimamanda Ngozi Adichie. Ela é a 28ª preta que homenageamos no #julhodaspretas na Central das Divas. Ela não é nascida no continente americano, mas tem influenciado muito o mundo ocidental, por isso, resolvemos falar dela no #julhodaspretas.

Chimamanda Ngozi Adichie nasceu em Enugu, na Nigéria, em 15 de setembro de 1977. Ao todo, ela tem 5 irmãos e é filha de um professor universitário e uma funcionária da Universidade da Nigéria, que por sinal foi a primeira secretária do sexo feminino da universidade.

Chimamanda começou seus estudos na Universidade da Nigéria, na área de estudou medicina e farmácia, por um ano e meio. Por lá, ela editou The Compass, uma revista feita por estudantes de medicina da universidade católica. Aos 19 anos, a escritora mudou-se para os Estados Unidos para estudar. Foi quando estudou comunicação e ciência política na Universidade de Drexel, na Filadélfia, tendo estudado depois em Eastern Connecticut State University para viver mais perto de sua irmã, que tinha um consultório médico em Coventry. Em 2003, ela completou um mestrado em escrita criativa na Universidade Johns Hopkins. Em 2008, recebeu a titulação de Master of Arts em Estudos Africanos pela Universidade de Yale. 


A carreira de Chimamanda é recheada de prêmios desde seus primeiros escritos. Sua primeira publicação foi uma coletânea de poemas em 1997 (Decisions) e, logo depois, uma peça (For Love of Biafra) em 1998. Já em 2002, foi indicada para o Prémio Caine com o conto "You in America".

Em 2003, sua história "That Harmattan Morning" ganhou o prêmio O. Henry para "The American Embassy". Ela também ganhou o David T. Wong Prêmio Internacional de Contos 2002/2003 (PEN Centro Award) e uma Beyond Margins Award por seu conto "A metade de um sol amarelo" de 2007.

Seu primeiro romance, Purple Hibiscus (2003) foi aclamado pela crítica e recebeu o Prêmio Commonwealth Writers como Melhor Primeiro Livro (2005).

Seu segundo romance, Half off a Yellow Sun, nomeado em homenagem a bandeira da nação de Biafra, se passa antes e durante a Guerra de Biafra. Esta obra também foi premiada com o Orange Prize de 2007 para Ficção. Half off a Yellow Sun foi adaptado para um filme com o mesmo título, dirigido por Biyi Bandele, estrelado pelo indicado ao Oscar Chiwetel Ejiofor e por Thandie Newton, lançado em 2014. Seu terceiro livro, The Thing Around Your Neck (2009), é uma coleção de histórias curtas.

Em 2010, ela entrou na lista dos 20 autores de ficção mais influentes com menos de 40 anos."Ceiling", foi incluída na edição do The Best American Short Stories 2011.Em 2013 ela publicou seu terceiro romance, "Americanah" que foi selecionado pelo New York Times como um dos 10 Melhores Livros de 2013.

Além do sucesso em livros, as palestras de Chimamanda correram o mundo na internet. "O perigo das histórias únicas" foi um sucesso no TED em 2009. Você pode assistir este vídeo legendado abaixo:




Mas, o maior sucesso da autora, transformado em livro, foi a palestra realizada "Sejamos todos feministas" no TEDxEuston, realizada em 2012. Este discurso é aquele que incorporado, em 2013, na música "Flawless" da cantora americana Beyoncé. No discurso, ela compartilhou sua experiência de ser uma feminista africana, e sua visão sobre construção de gênero e sexualidade.

″Eu estou com raiva. A construção de gênero do modo como funciona atualmente é uma grave injustiça. Todos nós deveríamos estar com raiva. Esse sentimento, a raiva, é importante historicamente para as transformações sociais positivas, mas além de estar com raiva eu também estou esperançosa porque eu acredito profundamente na habilidade dos humanos de se reinventarem e se tornarem melhores".

O vídeo está disponível abaixo e vale a pena assistir mais uma vez!


Muito orgulho de uma mulher tão jovem e negra que tem ditado muita coisa importante no movimento de luta das mulheres. São as mulheres negras mostrando que não há uma história única.


VIVA CHIMAMANDA!
VIVA AS MULHERES NEGRAS!





No mês de julho vamos celebrar, conhecer, homenagear 31 mulheres no mês de julho! Sabemos que ainda é pouco, mas será um prazer rever a vida de algumas das nossas inspirações! Billie Holliday, Carolina Maria de Jesus, Elza Soares, Ella Fitzgerald, Chimamanda Ngozi Adichie, Sueli Carneiro, Taiye Selasi, Luiza Bairros... São tantas pretas maravilhosas que iremos homenagear! Não perca!!

Laudelina de Campos Melo: uma guerreira em defesa da classe trabalhadora (27/31)

No dia 27 dos 31 em que estamos resgatando a história das mulheres negras em comemoração ao #julhodaspretas, vamos falar de Laudelina de Campos Melo. Ela foi uma importante ativista sindical e trabalhadora doméstica que lutou incessantemente pela garantia dos direitos das empregadas domésticas no Brasil. Sabe-se que sua trajetória foi marcada pela luta contra o preconceito racial, misoginia e exploração da classe trabalhadora. É importante reconhecer sua luta em função da regulamentação do emprego doméstico como fundadora do Sindicato das empregadas domésticas.

Laudelina nasceu em 12 de outubro de 1904, em Poços de Caldas, Minas Gerais. Já aos sete anos de idade começou a trabalhar como empregada doméstica. Com apenas 16 anos iniciou sua atuação em organizações de cunho cultural, sendo eleita presidenta do Clube 13 de Maio, que era uma agremiação que promovia atividades recreativas e políticas entre os negros de sua cidade.



Laudelina mudou-se para São Paulo aos 18 anos, onde se casou, mudando-se para Santos em 1924. Participou junto com seu marido da agremiação Saudade de Campinas, grupo cultural negro de Santos. Depois de se separar do marido (1938), e já com seus dois filhos, ela começa a atuar de forma mais incisiva em movimentos populares. Em 1936, ela se filia ao Partido Comunista Brasileiro, em 1936. Ainda em 1936, fundou a primeira Associação de Trabalhadores Domésticos do país, em Campinas. Fechada durante o Estado Novo, e voltando a funcionar em 1946. Ela teve uma importante atuação na na fundação da Frente Negra Brasileira, militando na maior associação da história do movimento negro, que chegou a ter 30 mil filiados ao longo da década de 1930.

Em 1955, Laudelina mudou-se para Campinas onde ela participa de atividades do movimento negro além de atividades culturais e sociais, especialmente com o Teatro Experimental do Negro (TEN). Este grupo tinha uma atuação no sentido de fortalecer a autoestima e a confiança da juventude negra, através da formação de grupos de teatro e dança. Criou uma escola de música e de balé na cidade. Laudelina trabalhou como empregada doméstica até 1954, quando abriu seu próprio negócio, uma pensão, e passou a vender também salgados nos dois campos de futebol da cidade (Guarani e Ponte Preta). A partir de então, ela se dedicou integralmente à militância sindical e cultural, inclusive promovendo, em 1957, um baile de debutantes (Baile Pérola Negra) para jovens negras, no Teatro Municipal de Campinas.


Fundou, com o apoio do Sindicato da Construção Civil do município de Campinas, o sindicato/associação das domésticas em Campinas. À frente da associação, apoiou dois tipos de ações: um voltado para alfabetização, pois considerava que seria o primeiro passo para conscientização e entendimento da legislação trabalhista e consequentemente reivindicação dos direitos da classe; e atividades que tinham como objetivo estimular a solidariedade entre as trabalhadoras.

Laudelina ajudou na fundação de outras associações da categoria como a do Rio de Janeiro e o de São Paulo. A militância sindical não a fez deixar de lado as demandas sociais, sempre participando dos movimentos negros e feministas. Mesmo durante a ditadura civil militar (1964-1985), ela não deixa de atuar nos movimentos sociais, passando a atuar no interior da igreja progressista, nas comunidades eclesiais de base. Entre 1968 e 1979, as atividades da associação de Campinas ficaram paralisadas. Mesmo assim, seguiu em defesa das domésticas e virou uma referência nacional na batalha pela regulamentação dos direitos das trabalhadoras domésticas. A atuação de Laudelina foi fundamental na década de 1970 para a categoria conquistar o direito à Carteira de Trabalho e à Previdência Social. Em 1982, ela auxiliou a reestruturação da associação de Campinas, possibilitando a transformação da associação em sindicato, em 20 de novembro de 1988.

Laudelina faleceu em 12 de maio de 1991 em Campinas, deixando sua casa para o sindicato de Campinas. 

Segundo a Professora Dr.ª Elisabete Aparecida Pinto, no livro “ETNICIDADE, GÊNERO E EDUCAÇÃO: Trajetória de vida de Laudelina de Campos Mello”, Laudelina se reivindicava feminista por sua atuação e posicionamentos junto às domésticas. Muito orgulho da existência de uma mulher como Laudelina.

VIVA LAUDELINA DE CAMPOS!
VIVA AS MULHERES NEGRAS!


No mês de julho vamos celebrar, conhecer, homenagear 31 mulheres no mês de julho! Sabemos que ainda é pouco, mas será um prazer rever a vida de algumas das nossas inspirações! Billie Holliday, Carolina Maria de Jesus, Elza Soares, Ella Fitzgerald, Chimamanda Ngozi Adichie, Sueli Carneiro, Taiye Selasi, Luiza Bairros... São tantas pretas maravilhosas que iremos homenagear! Não perca!!

Victoria Santa Cruz: gritaram-me negra! (26/31)

No dia 26 dos 31 dias do nosso #julhodaspretas vamos homenagear a poeta, coreografa, folclorista e estilista peruana Victoria Santa Cruz


Certamente você já deve ter lido ou ouvido seu mais famoso poema e não sabe muita coisa sobre sua vida. "Gritaram-me negra" viralizou na internet este ano mas, não sabemos muita coisa sobre sua autora. Mas, para nós, é fundamental aumentar a visibilidade de quem protagoniza as milhões de produções que chagam até nós. Nossa tarefa é ajudar a tirar as mulheres negras da invisibilidade, dar rosto e vida a elas e às suas ações, como dissemos no texto do dia 25/07.

Se você ainda não viu o vídeo, veja. Vale a pena!




No vídeo, a própria, Victoria Eugenia Santa Cruz Gamarra declama seu poema, com sua voz forte e marcante. Ela faz relata sua própria experiência com racismo, vivida com apenas 7 anos em um grupo de amigos que a expulsaram simplesmente por ser negra.Este fato marca sua reflexão sobre o racismo e que a fizeram entender desde muito cedo as condições que as pessoas negras são submetidas. 

Victoria nasceu em 1922, na cidade de La Vitoria, província de Lima, Peru.Desde criança a arte e a cultura afro-peruana a rodeava. Nicomedes Santa Cruz Aparicio, se pai, foi um importante dramaturgo e poeta, e sua mãe, Victoria Gamarra, foi bailarina de marinera (dança típica do Peru que une raízes culturais indígenas, africanas e espanholas) e filha de um famoso ator.

Victoria cria o grupo Cumanana juntamente com seu irmão mais novo, o também poeta, pesquisador e jornalista Nicomedes Santa Cruz Gamarra. O grupo se torna um dos primeiros grupos teatrais inteiramente integrado por negros . O objetivo era difundir as diversas vertentes da cultura afro-peruana. Foram lançados alguns discos contando a história dos afro-peruanos e de suas manifestações artísticas.

A artista tem a possibilidade de viajar a Paris para estudar na Universidade de Teatro das Nações e Escola Superior de Estudos Coreográficos. Durante seus estudos, a Victoria se destaca como figurinista, trabalhando em obras como “El retablo de Don Cristóbal”, de García Lorca e em “La Rosa de Papel”, de Ramón Del Valle Inclán.

Ao retornar para o Peru, ela funda a “Companhia Teatro e Danças Negras do Peru” que se apresenta nos melhores teatros e na televisão, chegando inclusive a representar seu país nos Jogos Olímpicos do México em 1968. Em 1970, ela recebe o prêmio de melhor folclorista no primeiro Festival e Seminário Latino-americano de TV, organizado pela Universidade Católica do Chile.

Victoria ainda faz uma turnê mundial com sua companhia, especialmente nos tempos em que era diretora do Conjunto Nacional de Folclore do Instituto Nacional da Cultura. Victoria chegou a fazer turnês pelos Estados Unidos, El Salvador, França, Bélgica, Suíça, entre outros países. 

Victoria Santa Cruz torna-se professora na requisitada Universidade Carnegie Mellon, Pensilvânia, nos Estados Unidos. Inicialmente, ela é convidada a lecionar nesta universidade, mas anos depois torna-se professora vitalícia.

Em 2014, a artista morre aos 91 anos, deixando um importante legado cultural e político. Foi porta voz da dor e da resistência das mulheres negras latino americanas.


VIVA VICTORIA SANTA CRUZ!
VIVA AS MULHERES NEGRAS!




Ubuntu: somos muitas, somos únicas! Viva a mulher negra latino americano caribenha!

Depois de quase 30 dias lendo e contando a história de mulheres negras nas Américas, consigo entender os motivos que levam à invisibilidade destas mulheres: a necessidade de perpetuar as estruturas racistas.

Se cada criança negra pudesse sentir cada sentimento que nos toma quando reconstruímos a história de mulheres negras, certamente nosso poder seria ainda maior. Se apropriar da história de quem nos precedeu nos enche de coragem, eleva auto estima porque é como se apropriar da sua história também. Vemos que nosso povo é lutador e que temos muita luta para honrar. Podemos ser filósofas, bailarinas, poetas, advogadas, líderes de partidos, professoras e o que mais nossa luta conseguir alcançar. Apesar da diversidade entre as mulheres pretas a gente sabe que a história de cada uma delas é também a história de todas nós, porque o povo negro construiu sua existência coletivamente.


Me surpreendi com detalhes importantes da vida de cada uma dessas pretas. Foi revelador e fortalecedor saber um pouco mais das mulheres que me antecederam. 

No dia 25, resolvi que gostaria de falar sobre meus sentimentos ao celebrar cada uma destas mulheres. Foram sentimentos que me tomaram e que, muitas vezes,eu não consegui expressar no texto, mas que fica aqui mais uma vez a tentativa de humanizar e tornar públicas estas histórias. 

Quem não acompanhou as postagens, seguem alguns links.
  • Foi dolorido descobrir que Billy Holliday teve sua vida arrasada por diversos homens;
  • Foi empoderador descobrir que Rita Ribera foi a primeira mulher a votar nas Américas;
  • Foi encorajador saber em que condições Sojouner Truth fez o famoso discurso "E eu não sou uma mulher?";
  • Foi transformador saber que Lélia Gonzalez era uma acadêmica mas nunca saiu das trincheiras de luta dos movimentos sociais;
  • Foi fortalecedor saber a história por trás da famosa foto de Gloria Richardson;
  • Foi emocionante saber que alguns dos bairros mais populosos de Salvador nasceram de um Quilombo liderado por Zeferina;
  • Foi emocionante lembrar da coragem de Assata Shakur, que fugiu ainda ferida para manter-se em luta.
  • Foi triste lembrar que estamos há um ano sem Luiza Bairros
  • Foi surpreendente conhecer a importância de Claudia Jones na luta contra o capitalismo. É incrível como sua contribuição é invisibilizada neste debate.
  • Foi encantador ver a leveza que Gloria Rolando consegue retratar as mulheres cubanas
  • Foi revoltante saber que o machismo deturpou a luta e potência de Elza Soares
  • Foi fascinante entender a complexidade do pensamento de Kimberlé Crenshaw e da teoria da interseccionalidade.


Cada uma delas fez com que eu me orgulhasse de poder falar como mulher negra e reconstruísse o trajeto que me trouxe até aqui. Falar sobre elas é mostrar que as mulheres negras têm rosto, têm história e deram uma importante e fundamental contribuição na luta, assumindo o papel de vanguarda na transformação da sociedade.

Nos próximos dias ainda teremos mais histórias para celebrar. 
Hoje, aproveite para abraçar aquela preta que te inspira e dizer que ela faz diferença na sua vida!

VIVA A MULHER NEGRA LATINO AMERICANA


Kimberlé Crenshaw e o feminismo interseccional (24/31)

Kimberlé Williams Crenshaw (nascida em 1959) é uma advogada norte americana e uma importante referência no campo conhecido como teoria crítica racial. Ela é professora titular da Faculdade de Direito da Universidade de Califórnia e da Universidade de Columbia, onde se especializou em questões de raça e gênero. Ela é conhecida pela introdução e desenvolvimento da teoria interseccional, que é o estudo de como as identidades sociais sobrepostas ou interceptadas, particularmente as identidades minoritárias, se relacionam com sistemas e estruturas de opressão, dominação ou discriminação. 


Crenshaw nasceu em Canton, Ohio, em 1959. Ela recebeu um diploma de bacharel em estudos africanos na Universidade de Cornell, em 1981. Ela é fundadora do campo da teoria crítica racial e professora de direitos civis, estudos críticos de raça e Lei constitucional. Em Columbia, ela é fundadora e diretora do Centro de Interseccionalidade e Estudos de Política Social, criada em 2011. Em 1996, ela co-fundou e se tornou diretora executiva do centro de pesquisa sem fins lucrativos e centro de informações, The African American Policy Forum, que se concentra em questões de gênero e diversidade.

O African American Policy Forum (AAPF) é um grupo de reflexão focado em desmantelar a desigualdade estrutural e avançar e expandir a justiça racial, a igualdade de gênero e a indivisibilidade de todos os direitos humanos, tanto em Estados Unidos como internacionalmente. Em 2001,  Crenshaw escreveu o documento de referência sobre Raça e Discriminação de Gênero para a Conferência Mundial das Nações Unidas sobre o Racismo. 

Mas, Kimberlé Crenshaw é conhecida principalmente por introduzir a teoria da interseccionalidade na teoria feminista na década de 1980. Sabe-se que o conceito de interseccionalidade não é novo, mas ela foi formalmente reconhecida a partir da sistematização de Crenshaw. Sua inspiração para a teoria começou enquanto ela ainda estava na faculdade e ela percebeu que as relações de gênero e raça estavam extremamente frágeis. 

Entre as principais publicações de Crenshaw temos "A Intersecionalidade na Discriminação de Raça e Gênero" que você encontra neste link. Além deste texto, ela publicou trabalhos sobre direitos civis, teoria jurídica feminista negra e racial, racismo e lei, dando uma importante contribuição ao debate feminista no mundo.

VIVA KIMBERLÉ CRENSHAW!
VIVA AS MULHERES NEGRAS!



No mês de julho vamos celebrar, conhecer, homenagear 31 mulheres no mês de julho! Sabemos que ainda é pouco, mas será um prazer rever a vida de algumas das nossas inspirações! Billie Holliday, Carolina Maria de Jesus, Elza Soares, Ella Fitzgerald, Chimamanda Ngozi Adichie, Sueli Carneiro, Taiye Selasi, Luiza Bairros... São tantas pretas maravilhosas que iremos homenagear! Não perca!!

Elza Soares: a mulher do fim do mundo (23/31)


Continuamos nossas homenagens às pretas que nos inspiram no nosso #julhodaspretas e vamos descobrindo tanto detalhe da vida dessas maravilhosas que até emociona. No dia 23 do #julhodaspretas, vamos homenagear a cantora Elza Soares. Uma história muito sofrida está por trás dessa voz poderosa.

Elza da Conceição Soares é o nome de nascença da diva. Ela é carioca nascida em 1930. Teve uma infância muito pobre e aos treze anos de idade seu pai a obrigou a parar de estudar. Acabou se casando aos 14 anos e tendo seu primeiro filho na mesma idade. Em sua primeira apresentação artística, foi vítima de chacota e preconceito por sua aparência. No programa de Ary Barroso na Rádio Tupi, onde fez sua primeira apresentação ao vivo no auditório da emissora, o apresentador pergunta ironicamente: "De que planeta você veio?", ao que Elza respondeu: "Vim do mesmo planeta que o senhor". "E posso saber de que planeta eu sou?". "Do Planeta Fome". Ainda assim, Elza se destacou e recebeu as melhores notas.


Aos quinze anos de idade outro filho seu faleceu. Ela passou a trabalhar como encaixotadora e conferente em uma fábrica de sabão para sustentar a família enquanto o marido se recuperava de tuberculose. Aos 21 anos e 5 filhos, Elza ficou viúva. Começou a trabalhar como faxineira e empregada doméstica, profissões que exerceu por muitos anos. 

Aos 32 anos, com uma carreira consolidada conhece o jogador de futebol Garrincha. Em inicio de carreira, foi vítima de machismo. O fato de ele ser desquitado e ela com 5 filhos, geraram ataques da sociedade contra ela. Elza era xingada, ameaçada de morte, sua casa era alvejada por ovos e tomates. Ela era acusada de ser pivô do fim do casamento de Garrincha. Elza e Garrincha foram casados por 16 anos, de 1968 a 1982. Foi um casamento conturbado pelo ciúme e alcoolismo de Garrincha. Durante o tempo em que estiveram juntos, ela rodava os bares pedindo para ninguém dar bebida alcoólica ao marido. 

Mesmo com tantas histórias difíceis, Elza constrói uma carreira brilhante. Nos anos 70, Elza realizou uma turnê pelos Estados Unidos e Europa. Em 2000, foi premiada como "Melhor Cantora do Milênio" pela BBC em Londres.

O álbum Do Cóccix até o Pescoço garantiu-lhe uma indicação ao Grammy, em 2002. Em 2007, nos Jogos Pan-americanos do Brasil, Elza interpretou o Hino Nacional Brasileiro, no início da cerimônia de abertura do evento, no Maracanã. No mesmo ano, lançou o álbum Beba-me, onde gravou as músicas que marcaram sua carreira.

Em 2014, estreia o show A Voz e a Máquina, estando no palco apenas pelos DJs Ricardo Muralha, Bruno Queiroz e Guilherme Marques. No ano de 2015, Elza Soares lançou o seu disco A Mulher do Fim do Mundo, primeiro álbum em sua carreira só com músicas inéditas. Este ábum é premiado diversas vezes. Em 2015, vence o prêmio de melhor álbum no Troféu APCA. Em 2016, ganha como melhor álbum o Prêmio da Música Brasileira, o Prêmio Multishow de Música Brasileira e o Grammy Latino. Ela venceu também como melhor música - "Maria da Vila Matilde" - os mesmos prêmios. 

Aos 87 anos, apesar de já ter sua saúde debilitada, Elza Soares mostra que ainda tem muito a contribuir com a arte. 



VIVA ELZA SOARES

VIVA AS MULHERES NEGRAS!



No mês de julho vamos celebrar, conhecer, homenagear 31 mulheres no mês de julho! Sabemos que ainda é pouco, mas será um prazer rever a vida de algumas das nossas inspirações! Billie Holliday, Carolina Maria de Jesus, Elza Soares, Ella Fitzgerald, Chimamanda Ngozi Adichie, Sueli Carneiro, Taiye Selasi, Luiza Bairros... São tantas pretas maravilhosas que iremos homenagear! Não perca!!

Patricia Hill Collins: a mulher negra e feminismo (22/31)

Já estamos no 22º dia dos 31 dias do #julhodaspretas na Central das Divas. No dia de hoje, vamos falar da professora Patricia Hill Collins.

Collins nasceu em 1948, na Filadélfia, Pensilvânia. Collins estudou em escolas públicas da cidade que nasceu. Se formou em 1969 em sociologia na Universidade de Brandeis. Ela obteve o título de mestre na Universidade de Harvard, em 1970. De 1970 a 1976, ela foi professora de educação na Faculdade Comunitária St. Joseph, em Roxbury, Boston. Ela se tornou a diretora do Centro Africana na Universidade de Tufts, onde ficou de 1976 a 1980. 


Seus estudos de doutorado em sociologia foram realizados em Brandeis, em 1984. Ao obter o título, ela trabalhou como professora assistente na Universidade de Cincinnati no início em 1982.

Em 1990, Collins publicou seu primeiro livro, Black Feminist Thought: Knowledge, Consciousness and the Politics of Empowerment. Uma décima edição, revista, foi publicada em 2000 e, posteriormente, traduzida para coreano, em 2009. Atualmente, Collins ensina Sociologia da Universidade de Maryland, College Park.

Em 1990, Collins publicou Black Feminist Thought: Knowledge, Consciousness and the Politics of Empowerment, onde articula leituras de trabalhos do trabalho de Angela Davis, Alice Walker e Audre Lorde. De sua análise é possível inferir que as opressões de raça, classe, gênero, sexualidade e nação se interrelacionam, construindo mutuamente sistemas de poder. Collins utilizou o termo "interseccionalidade", originalmente cunhado por Kimberlé Crenshaw, para se referir a essa sobreposição simultânea de múltiplas formas de opressão.Também pode-se concluir que as experiências específicas das mulheres negras com a interseção de sistemas de opressão fornecem uma janela para os mesmos processos para outros indivíduos e grupos sociais.

O livro seguinte de Collins ganhou o Book Award da Associação Americana de Sociologia. Black Sexual Politics: African Americans, Gender, and the New Racism defende que o racismo e a heteronormatividade estão interligadas e que ideais de beleza atuam para oprimir os afro-americanos. 

Em 2006, ela publicou From Black Power to Hip Hop: Racism, Nationalism, and Feminism, onde examinou a relação entre nacionalismo negro, o feminismo e o hip-hop. Patricia deu uma enorme contribuição teórica para a compreensão do sistema de opressão que sofre a mulher negra.

VIVA PATRICIA HILL COLLINS!
VIVA AS MULHERES NEGRAS!




No mês de julho vamos celebrar, conhecer, homenagear 31 mulheres no mês de julho! Sabemos que ainda é pouco, mas será um prazer rever a vida de algumas das nossas inspirações! Billie Holliday, Carolina Maria de Jesus, Elza Soares, Ella Fitzgerald, Chimamanda Ngozi Adichie, Sueli Carneiro, Taiye Selasi, Luiza Bairros... São tantas pretas maravilhosas que iremos homenagear! Não perca!!

Gloria Rolando: as mulheres cubanas retratadas no cinema (21/31)

No dia 21 dos 31 dias do #julhodaspretas na Central das Divas vamos falar da diretora de cinema cubana Gloria Victoria Rolando. 

Gloria Rolando nasceu em Havana em 1953. Ela cresceu em meio à revolução, estudou música no Conservatório Provincial "Amadeo Roldan" e depois História da Arte na Universidade de Havana. Ela completou mais de uma dúzia de filmes e documentários sobre história afro-cubana. Alguns de seus trabalhos mais conhecidos incluem Eyes of the Rainbow (1997), um filme sobre Assata Shakur; Uma série de três partes sobre o massacre de 1912 dos membros do Partido Independente de Cor, intitulado Breaking the Silence (2010); E uma história da comunidade das índias Ocidentais no leste de Cuba, My Footsteps in Baraguá (1996).



Mas, é o seu documentário mais recente, Diálogo com a minha avó (2015), que fala diretamente às representações das mulheres negras na Cuba contemporânea. Com base em uma conversa que teve com sua avó, Inocencia Leonarda Armas y Abrea, em 17 de fevereiro de 1993, o documentário é uma mistura mágica da voz de sua avó, encantamentos religiosos afro-cubanos e narração de Rolando sobre momentos centrais no passado cubano. Levou mais de vinte anos para que Rolando transcrevesse as fitas em que ela gravou a conversa inicial e encontrou os fundos para tornar este produto final em conjunto com o Instituto Nacional do Filme Cubano (ICAIC). Em uma entrevista de 2016, ela admite que não tinha planejado usar a gravação. A cineasta e sua avó conversaram o tempo todo e esse dia, em 1993, não era diferente. Somente nos últimos anos, enquanto cuidava de sua mãe doente, Rolando decidiu que queria dar algo de volta às mulheres que haviam dado tanto a ela.

Uma das formas como o filme desafia os estereótipos negativos sobre as mulheres negras em Cuba é através do foco no trabalho e contribuições de sua avó para sua família e a nação como um todo. Enquanto Inocencia conta sua infância em Santa Clara e conta histórias de danças presentes em alguns dos clubes sociais negros mais conhecidos da cidade, a câmera flui para frente e para trás entre fotografias familiares e as mãos de um ator negro envelhecido agarrando um lenço. Repetidamente, a única imagem na tela é Rolando e as mãos de sua avó. Rolando disse: 

"Esta é uma história de muitas mulheres negras que lavaram, passaram a ferro e foram as bases das nossas famílias. É por isso que mostrei suas mãos; Por respeito pelas mãos que trabalharam tanto para construir uma família ".

O diálogo com sua avó também é um "diálogo espiritual" com ancestrais afro-cubanos. Apresentando as canções rituais de Boabab (Havana) e Obba Ilu (Santa Clara) do espiritismo cubano (espiritismo), o documentário começa e termina com uma mesa espiritual (mesa espiritual) onde os praticantes convocam os mortos para falar no presente: "Eu convido você a se juntar a mim em um diálogo com minha avó". O documentário é um contra-discurso para versões mais sanitizadas da história cubana que raramente falam sobre raça. Observando que sua avó foi a primeira a falar sobre os clubes sociais segregados que existiram em Cuba antes da revolução, Rolando destaca as tradições sociais e religiosas que muitas vezes de sua vida. Em particular, ela detalha um protesto racial em 1925 em Santa Clara que ocorreu quando os negros tentaram caminhar de um lado do parque que era proibido e os brancos responderam com violência (jogando cadeiras e atirando) a fim de parar as mudanças que eles temiam. Ao longo do documentário, Rolando recupera peças escondidas da história cubana com especial atenção para a vida das mulheres negras.

Mas, é a cena final do documentário que faz uma metáfora brilhante à ideia de Cuba como o campo de jogos dos Estados Unidos. Em uma voz parada, como imagens de minstrels de blackface em camisas e figuras de turistas de mulheres negras que fumam charutos disparam através da tela, Rolando conclui: 

"Há algo que não posso evitar dizer. Eles queriam distorcer muitas vezes a imagem da minha avó. . . Desde a época colonial, eles inventaram os padrões de uma indústria que não nos representa. Mas, infelizmente, muitas pessoas em Cuba e outros países também reproduzem e vendem essas irresponsáveis ​​versões coloniais. Por que essa imagem falsa e degradante da mulher negra? Por quê? Por quê? Por quê?"

Cada "por que" é pontuado por um ritmo rítmico e uma estatueta diferente que esmaga ao chão. Esta cena final que mostra as peças quebradas de um paraíso cubano que vende blackfaces a turistas e desvaloriza os corpos de mulheres afro-cubanas contrasta-se com a história da mulher que aparece no Diálogo com minha Avó. Rolando termina o documentário como começa: sentada em uma cadeira de balanço em frente à cadeira vazia de sua avó. Ela nos desafia como espectadores a decidir qual Cuba queremos ver. Enquanto você planeja sua viagem para a ilha, você só verá os carros e as meninas se exibindo, ou você se lembrará das mãos muitas vezes negligenciadas de muitas mulheres e homens de ascendência africana que construíram e continuaram a construir Cuba?



VIVA GLORIA ROLANDO!
VIVA AS MULHERES NEGRAS!




No mês de julho vamos celebrar, conhecer, homenagear 31 mulheres no mês de julho! Sabemos que ainda é pouco, mas será um prazer rever a vida de algumas das nossas inspirações! Billie Holliday, Carolina Maria de Jesus, Elza Soares, Ella Fitzgerald, Chimamanda Ngozi Adichie, Sueli Carneiro, TaiyeSelasi, Luiza Bairros... São tantas pretas maravilhosas que iremos homenagear! Não perca!!


Claudia Jones: a luta da mulher negra é uma ameaça à burguesia (20/31)

No dia 20 dos 31 dias do #julhodaspretas da Central das Divas, homenageamos Claudia Jones, mulher, preta e importante feminista. Claudia Jones não é muito conhecida no Brasil, mas na conferência da professora Angela Davis na abertura do curso de Black Feminism no dia 17 de julho de 2017 - disponível na íntegra neste link - ela foi amplamente citada, então a gente resolveu resgatar um pouco da biografia.

Claudia Vera Cumberbatch, nome de registro de Claudia Jones, nasceu em 1915 em Trinidad. Entretanto ela é radicada nos Estados Unidos da América, tendo se mudado com a família para este país ainda criança. Desde muito jovem ela se destaca nos estudos, tendo ganhado o Jones ganhou o Prêmio Theodore Roosevelt de Boa Cidadania em sua escola de ensino médio. Apesar disso, sua condição de mulher, negra e imigrante trouxe diversos impedimentos e dificuldades. Ao invés de continuar seus estudos, Jones começou a trabalhar em uma lavanderia e, posteriormente, no comércio, no Harlem. É quando ela se junta a um grupo de teatro e começou a escrever uma coluna chamada "Claudia Comments" para um jornal do Harlem.

Aos 21 anos ela se juntou à organização comunista Young Communist League USA. Na década de 1930, Jones foi editora do Daily Worker e do jornal mensal Spotlight. Após a II Guerra Mundial, Jones tornou-se secretária-executiva da Comissão Nacional das Mulheres, vinculada ao Partido Comunista dos Estados Unidos (CPUSA) e, em 1952, assumiu a mesma posição no Conselho Nacional da Paz. Em 1953, ela assumiu a direção da política associada a assuntos afro-estadunidenses.

Como resultado de sua participação no CPUSA e de várias actividades associadas, em 1948, ela foi presa e condenada, para o primeiro de quatro períodos de prisão. Detida na Ellis Island, ela foi ameaçada de deportação para Trinidad. Ela sofre um ataque cardíaco enquanto estava presa, sendo deportada em 1955. Com a entrada proibida em Trinidad, ela se muda para o Reino Unido onde fortalece a luta contra o racismo e o empoderamento da comunidade afro caribenha. No início da década de 1960, apesar de estar com a saúde abalada, Jones ajudou a organizar campanhas contra a Lei de Imigração 1876, o que tornaria mais difícil para os não-brancos de imigrarem para a Grã-Bretanha. Em 1958, ela fundou e tornou-se editora do jornal anti-imperialista e antiracista West Indian Gazette e Afro-Asian Caribbean News. O jornal foi um importante instrumento político na comunidade negra britânica. Jones também participou da campanha para a libertação de Nelson Mandela e denunciou o racismo no local de trabalho. 


Jones também contribuiu para a manifestação artística do povo afro latino caribenha em Londres, sendo uma das criadoras do Carnaval de Notting Hill.
Claudia morre precocemente, aos 49 anos, em casa, vitimada por um ataque cardíaco. Ela é enterrada em Londres, ao lado de uma grande referência: Karl Marx.

Claudia Jones deixa um importante legado teórico e prático. Anualmente, o Conselho de Membros Negros do Sindicato Nacional dos Jornalistas organiza um importante evento em memória a Claudia Jones, para celebrar sua contribuição ao jornalismo negro. Em 1982, é fundada a Organização Claudia Jones foi fundada em Londres, para apoiar e capacitar as mulheres e as famílias afro-caribenhas.

Seu texto mais conhecido foi publicado em 1949 na revista Political Affairs. "An End to the Neglect of the Problems of the Negro Woman!" já trás elementos do que hoje em dia chamamos de interseccionalidade por trazer elementos raciais, de gênero e de classe para discutir a situação de opressão das mulheres negras.


A burguesia tem medo da militância da mulher negra, e por uma boa razão. Os capitalistas sabem muito mais do que progressistas parecem saber que, quando as mulheres negras começarem a agir, a militância de toda a população negra, e assim da coalizão anti-imperialista, vai aumentar muito. Historicamente, a mulher negra tem sido a guardiã e protetora da família negra. [...] Como mãe, negra e trabalhadora, a mulher negra luta contra a destruição da família negra, contra as leis segregacionistas que destroem a saúde, a moral e a vida de milhões de irmãs, irmãos e crianças. Nessa perspectiva, não é eventual a burguesia estadunidense ter intensificado a opressão não apenas contra a população negra no geral mas contra a mulher negra em específico. Nada expõe mais a fascistização de uma nação quanto a atitude vil que a burguesia exibe e cultiva contra as mulheres negras.


VIVA CLAUDIA JONES!

VIVA AS MULHERES NEGRAS!




No mês de julho vamos celebrar, conhecer, homenagear 31 mulheres no mês de julho! Sabemos que ainda é pouco, mas será um prazer rever a vida de algumas das nossas inspirações! Billie Holliday, Carolina Maria de Jesus, Elza Soares, Ella Fitzgerald, Chimamanda Ngozi Adichie, Sueli Carneiro, Taiye Selasi, Luiza Bairros... São tantas pretas maravilhosas que iremos homenagear! Não perca!!

Carolina Maria de Jesus: literatura negra e periférica presente! (19/31)


No dia 19 dos 31 dias do #julhodaspretas da Central das Divas homenageamos, com muita honra, Carolina Maria de Jesus. Nos últimos anos, tem havido um importante resgate da biografia de Carolina e de sua obra, mas sabemos que a importância de sua obra ainda não é consenso no meio literário por um único motivo: CAROLINA ERA MULHER PRETA POBRE. Quem não se lembra da declaração de Ivan Cavalcanti Proença - homem e branco - sobre Carolina, na Academia Carioca de Letras, em abril deste ano? O livro ‘Quarto de despejo’ não é literatura. Ouvi de muitos intelectuais paulistas: ‘Se essa mulher escreve, qualquer um pode escrever’”. Rapidamente, Elisa Lucinda e dezenas de outros literatos saíram em defesa da obra de Carolina. Portanto, para nós, é fundamental reconhecer e homenagear Carolina Maria de Jesus.



Carolina Maria de Jesus nasceu em 1914, em Sacramento, Minas Gerais, numa comunidade rural. Carolina foi criada apenas pela mãe, uma vez que seu pai não a reconhecia omo filha legítima. Apesar da infância pobre, aos sete anos, a mãe de Carolina pode frequentar a escola depois que a esposa de um rico fazendeiro decidiu pagar seus estudos. Ela permaneceu apenas 2 anos estudando, mas aprendeu a ler e a escrever. Carolina também desenvolveu gosto pela leitura.

Em 1937, com a morte de sua mãe Carolina migrou para São Paulo. Na metrópole, ela se instalou na favela do Canindé e trabalhava como catadora de papel, a fim de conseguir dinheiro para sustentar a família. As revistas e cadernos antigos encontrados eram usados para escrever sobre seu dia-a-dia. Assim ela produziu seu testemunho sobre o cotidiano de uma mulher preta, pobre e moradora da favela, dando origem ao seu livro mais famoso, Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, publicado em 1960.

Foram vendidos mais de 100 mil exemplares de Quarto de despejo que foi traduzido para 13 idiomas e vendas em mais de 40 países. Em vida, Carolina Maria publicou Quarto de Despejo, Casa de Alvenaria (1961), Pedaços de Fome (1963) e Provérbios (1963). Carolina Maria de Jesus criou três filhos sozinha, solteira. morreu em 13 de fevereiro de 1977, vítima de insuficiência respiratória. Há registros que relatam sobre Carolina Maria ser uma "mulher de temperamento forte" e por isso ela teria morrido pobre. Entretanto, sabemos todos os estereótipos que perseguem as mulheres negras. Se o comportamento supostamente difícil de um artista branco não é empecilho para seu sucesso, porque deveria ser para uma mulher negra? Sabe-se que ela, desde muito jovem, era repreendida pela curiosidade excessiva e rejeitada por não se enquadrar nos padrões destinados às mulheres negras: o lugar dos bastidores, sem privilégios e sem protagonismo. A verdade é que o brilhantismo de Carolina Maria de Jesus não foi reconhecido devido ao fato de ela ser mulher, pobre, preta e falar a partir deste lugar.

Todas as homenagens a Carolina Maria de Jesus são justas e necessárias. Que possamos conhecer e difundir seus escritos para as próximas gerações.

Postumamente, foram publicados Diário de Bitita (1982), Meu estranho diário (1996), Antologia Pessoal (1996) e Onde Estaes Felicidade (2014).

Lélia Gonzalez: intelectual e militante a serviço da transformação social (18/31)


No dia 18 dos 31 do #julhodaspretas da Central das Divas vamos falar de Lélia Gonzalez. Nascida em Belo Horizonte, em 1935,  era filha de um ferroviário negro e de uma empregada doméstica indígena era a penúltima de 18 irmãos. 

Lélia mudou-se para o Rio de Janeiro em 1942. Lá ela trabalhou inicialmente como babá, mas pode estudar e graduar-se em História e Filosofia, seguindo carreira de professora da rede pública de ensino. Fez o mestrado em comunicação social e o doutorado em antropologia política. Suas pesquisas são dedicadas às pesquisas sobre relações de gênero e etnia. Foi professora de Cultura Brasileira na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, onde chefiou o departamento de Sociologia e Política.


No final da década de 1960, quandi atuava como professora de Ensino Médio no Colégio de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira (UEG, atual UERJ), as aulas de Lélia se tornaram espaço de resistência e crítica político-social. Como importante militante de movimentos sociais, Lélia ajudou a fundar instituições como o Movimento Negro Unificado (MNU), o Instituto de Pesquisas das Culturas Negras (IPCN), o Coletivo de Mulheres Negras N'Zinga e o Olodum. Sua militância em defesa da mulher negra levou-a ao Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), no qual atuou de 1985 a 1989. Foi candidata a deputada federal pelo PT, elegendo-se primeira suplente. Nas eleições seguintes, em 1986, candidatou-se a deputada estadual pelo PDT, novamente elegendo-se suplente.

Toda sua obra e atuação foram permeados por sua atuação política em diversos setores em especial na luta de negros, principalmente das mulheres negras e deixa um importante legado. Certamente, Lélia é uma das maiores referência para as mulheres ainda hoje.


VIVA LÉLIA GONZALEZ! 
VIVA AS MULHERES NEGRAS!




No mês de julho vamos celebrar, conhecer, homenagear 31 mulheres no mês de julho! Sabemos que ainda é pouco, mas será um prazer rever a vida de algumas das nossas inspirações! Billie Holliday, Carolina Maria de Jesus, Elza Soares, Ella Fitzgerald, Chimamanda Ngozi Adichie, Sueli Carneiro, TaiyeSelasi, Luiza Bairros... São tantas pretas maravilhosas que iremos homenagear! Não perca!!

Conceição Evaristo: um presente para a literatura brasileira (17/31)

No dia 17 dos 31 dias do #julhodaspretas vamos homenagear a escritora e ativista Conceição Evaristo. É sempre um prazer poder homenagear mulheres contemporâneas que estão por aí ainda brilhando para que a gente possa reverência-las ainda em vida. 

Conceição nasceu em uma favela da zona sul de Belo Horizonte.  Em uma família muito pobre, tendo 9 irmãos ela conciliou os estudos com o trabalho empregada doméstica, até concluir o curso normal, aos 25 anos.  


Em 1971 ela muda-se para o Rio de Janeiro, onde passou num concurso público para o magistério e estudou Letras na UFRJ. Na década de 1980, entrou em contato com o grupo Quilombhoje, coletivo cultural responsável pela publicação dos Cadernos Negros, onde estreia na literatura, em 1990.

Ainda no Rio de Janeiro, Conceição faz seu mestrado na PUC, em Literatura Brasileira, e doutorado em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense.

Em suas obras, a escritora aborda questões relacionadas à discriminação racial, de gênero e de classe, especialmente em Ponciá Vicêncio, de 2003. A obra foi traduzida para o inglês e publicada nos Estados Unidos em 2007. 


“Olhos d’água” é uma obra muito marcante de Conceição Evaristo ( ed. Pallas/ Biblioteca Nacional ), tendo ganhado um prêmio Jabuti (contos) no ano de 2015. São 15 contos que trazem personagens muito reais: negras, mulheres, ex-prostitutas, pobre. O nome do livro dá nome também à primeira primeira história, que fala de uma mulher às voltas com a imagem que guarda de sua mãe.

Atualmente leciona na UFMG como professora visitante e milita ativamente no movimento negro, com grande participação e atividade em eventos relacionados a militância política-social.

VIVA CONCEIÇÃO EVARISTO!
VIVA AS MULHERES NEGRAS!



No mês de julho vamos celebrar, conhecer, homenagear 31 mulheres no mês de julho! Sabemos que ainda é pouco, mas será um prazer rever a vida de algumas das nossas inspirações! Billie Holliday, Carolina Maria de Jesus, Elza Soares, Ella Fitzgerald, Chimamanda Ngozi Adichie, Sueli Carneiro, TaiyeSelasi, Luiza Bairros... São tantas pretas maravilhosas que iremos homenagear! Não perca!!