Victoria Santa Cruz: gritaram-me negra! (26/31)

No dia 26 dos 31 dias do nosso #julhodaspretas vamos homenagear a poeta, coreografa, folclorista e estilista peruana Victoria Santa Cruz


Certamente você já deve ter lido ou ouvido seu mais famoso poema e não sabe muita coisa sobre sua vida. "Gritaram-me negra" viralizou na internet este ano mas, não sabemos muita coisa sobre sua autora. Mas, para nós, é fundamental aumentar a visibilidade de quem protagoniza as milhões de produções que chagam até nós. Nossa tarefa é ajudar a tirar as mulheres negras da invisibilidade, dar rosto e vida a elas e às suas ações, como dissemos no texto do dia 25/07.

Se você ainda não viu o vídeo, veja. Vale a pena!




No vídeo, a própria, Victoria Eugenia Santa Cruz Gamarra declama seu poema, com sua voz forte e marcante. Ela faz relata sua própria experiência com racismo, vivida com apenas 7 anos em um grupo de amigos que a expulsaram simplesmente por ser negra.Este fato marca sua reflexão sobre o racismo e que a fizeram entender desde muito cedo as condições que as pessoas negras são submetidas. 

Victoria nasceu em 1922, na cidade de La Vitoria, província de Lima, Peru.Desde criança a arte e a cultura afro-peruana a rodeava. Nicomedes Santa Cruz Aparicio, se pai, foi um importante dramaturgo e poeta, e sua mãe, Victoria Gamarra, foi bailarina de marinera (dança típica do Peru que une raízes culturais indígenas, africanas e espanholas) e filha de um famoso ator.

Victoria cria o grupo Cumanana juntamente com seu irmão mais novo, o também poeta, pesquisador e jornalista Nicomedes Santa Cruz Gamarra. O grupo se torna um dos primeiros grupos teatrais inteiramente integrado por negros . O objetivo era difundir as diversas vertentes da cultura afro-peruana. Foram lançados alguns discos contando a história dos afro-peruanos e de suas manifestações artísticas.

A artista tem a possibilidade de viajar a Paris para estudar na Universidade de Teatro das Nações e Escola Superior de Estudos Coreográficos. Durante seus estudos, a Victoria se destaca como figurinista, trabalhando em obras como “El retablo de Don Cristóbal”, de García Lorca e em “La Rosa de Papel”, de Ramón Del Valle Inclán.

Ao retornar para o Peru, ela funda a “Companhia Teatro e Danças Negras do Peru” que se apresenta nos melhores teatros e na televisão, chegando inclusive a representar seu país nos Jogos Olímpicos do México em 1968. Em 1970, ela recebe o prêmio de melhor folclorista no primeiro Festival e Seminário Latino-americano de TV, organizado pela Universidade Católica do Chile.

Victoria ainda faz uma turnê mundial com sua companhia, especialmente nos tempos em que era diretora do Conjunto Nacional de Folclore do Instituto Nacional da Cultura. Victoria chegou a fazer turnês pelos Estados Unidos, El Salvador, França, Bélgica, Suíça, entre outros países. 

Victoria Santa Cruz torna-se professora na requisitada Universidade Carnegie Mellon, Pensilvânia, nos Estados Unidos. Inicialmente, ela é convidada a lecionar nesta universidade, mas anos depois torna-se professora vitalícia.

Em 2014, a artista morre aos 91 anos, deixando um importante legado cultural e político. Foi porta voz da dor e da resistência das mulheres negras latino americanas.


VIVA VICTORIA SANTA CRUZ!
VIVA AS MULHERES NEGRAS!




Ubuntu: somos muitas, somos únicas! Viva a mulher negra latino americano caribenha!

Depois de quase 30 dias lendo e contando a história de mulheres negras nas Américas, consigo entender os motivos que levam à invisibilidade destas mulheres: a necessidade de perpetuar as estruturas racistas.

Se cada criança negra pudesse sentir cada sentimento que nos toma quando reconstruímos a história de mulheres negras, certamente nosso poder seria ainda maior. Se apropriar da história de quem nos precedeu nos enche de coragem, eleva auto estima porque é como se apropriar da sua história também. Vemos que nosso povo é lutador e que temos muita luta para honrar. Podemos ser filósofas, bailarinas, poetas, advogadas, líderes de partidos, professoras e o que mais nossa luta conseguir alcançar. Apesar da diversidade entre as mulheres pretas a gente sabe que a história de cada uma delas é também a história de todas nós, porque o povo negro construiu sua existência coletivamente.


Me surpreendi com detalhes importantes da vida de cada uma dessas pretas. Foi revelador e fortalecedor saber um pouco mais das mulheres que me antecederam. 

No dia 25, resolvi que gostaria de falar sobre meus sentimentos ao celebrar cada uma destas mulheres. Foram sentimentos que me tomaram e que, muitas vezes,eu não consegui expressar no texto, mas que fica aqui mais uma vez a tentativa de humanizar e tornar públicas estas histórias. 

Quem não acompanhou as postagens, seguem alguns links.
  • Foi dolorido descobrir que Billy Holliday teve sua vida arrasada por diversos homens;
  • Foi empoderador descobrir que Rita Ribera foi a primeira mulher a votar nas Américas;
  • Foi encorajador saber em que condições Sojouner Truth fez o famoso discurso "E eu não sou uma mulher?";
  • Foi transformador saber que Lélia Gonzalez era uma acadêmica mas nunca saiu das trincheiras de luta dos movimentos sociais;
  • Foi fortalecedor saber a história por trás da famosa foto de Gloria Richardson;
  • Foi emocionante saber que alguns dos bairros mais populosos de Salvador nasceram de um Quilombo liderado por Zeferina;
  • Foi emocionante lembrar da coragem de Assata Shakur, que fugiu ainda ferida para manter-se em luta.
  • Foi triste lembrar que estamos há um ano sem Luiza Bairros
  • Foi surpreendente conhecer a importância de Claudia Jones na luta contra o capitalismo. É incrível como sua contribuição é invisibilizada neste debate.
  • Foi encantador ver a leveza que Gloria Rolando consegue retratar as mulheres cubanas
  • Foi revoltante saber que o machismo deturpou a luta e potência de Elza Soares
  • Foi fascinante entender a complexidade do pensamento de Kimberlé Crenshaw e da teoria da interseccionalidade.


Cada uma delas fez com que eu me orgulhasse de poder falar como mulher negra e reconstruísse o trajeto que me trouxe até aqui. Falar sobre elas é mostrar que as mulheres negras têm rosto, têm história e deram uma importante e fundamental contribuição na luta, assumindo o papel de vanguarda na transformação da sociedade.

Nos próximos dias ainda teremos mais histórias para celebrar. 
Hoje, aproveite para abraçar aquela preta que te inspira e dizer que ela faz diferença na sua vida!

VIVA A MULHER NEGRA LATINO AMERICANA


Kimberlé Crenshaw e o feminismo interseccional (24/31)

Kimberlé Williams Crenshaw (nascida em 1959) é uma advogada norte americana e uma importante referência no campo conhecido como teoria crítica racial. Ela é professora titular da Faculdade de Direito da Universidade de Califórnia e da Universidade de Columbia, onde se especializou em questões de raça e gênero. Ela é conhecida pela introdução e desenvolvimento da teoria interseccional, que é o estudo de como as identidades sociais sobrepostas ou interceptadas, particularmente as identidades minoritárias, se relacionam com sistemas e estruturas de opressão, dominação ou discriminação. 


Crenshaw nasceu em Canton, Ohio, em 1959. Ela recebeu um diploma de bacharel em estudos africanos na Universidade de Cornell, em 1981. Ela é fundadora do campo da teoria crítica racial e professora de direitos civis, estudos críticos de raça e Lei constitucional. Em Columbia, ela é fundadora e diretora do Centro de Interseccionalidade e Estudos de Política Social, criada em 2011. Em 1996, ela co-fundou e se tornou diretora executiva do centro de pesquisa sem fins lucrativos e centro de informações, The African American Policy Forum, que se concentra em questões de gênero e diversidade.

O African American Policy Forum (AAPF) é um grupo de reflexão focado em desmantelar a desigualdade estrutural e avançar e expandir a justiça racial, a igualdade de gênero e a indivisibilidade de todos os direitos humanos, tanto em Estados Unidos como internacionalmente. Em 2001,  Crenshaw escreveu o documento de referência sobre Raça e Discriminação de Gênero para a Conferência Mundial das Nações Unidas sobre o Racismo. 

Mas, Kimberlé Crenshaw é conhecida principalmente por introduzir a teoria da interseccionalidade na teoria feminista na década de 1980. Sabe-se que o conceito de interseccionalidade não é novo, mas ela foi formalmente reconhecida a partir da sistematização de Crenshaw. Sua inspiração para a teoria começou enquanto ela ainda estava na faculdade e ela percebeu que as relações de gênero e raça estavam extremamente frágeis. 

Entre as principais publicações de Crenshaw temos "A Intersecionalidade na Discriminação de Raça e Gênero" que você encontra neste link. Além deste texto, ela publicou trabalhos sobre direitos civis, teoria jurídica feminista negra e racial, racismo e lei, dando uma importante contribuição ao debate feminista no mundo.

VIVA KIMBERLÉ CRENSHAW!
VIVA AS MULHERES NEGRAS!



No mês de julho vamos celebrar, conhecer, homenagear 31 mulheres no mês de julho! Sabemos que ainda é pouco, mas será um prazer rever a vida de algumas das nossas inspirações! Billie Holliday, Carolina Maria de Jesus, Elza Soares, Ella Fitzgerald, Chimamanda Ngozi Adichie, Sueli Carneiro, Taiye Selasi, Luiza Bairros... São tantas pretas maravilhosas que iremos homenagear! Não perca!!

Elza Soares: a mulher do fim do mundo (23/31)


Continuamos nossas homenagens às pretas que nos inspiram no nosso #julhodaspretas e vamos descobrindo tanto detalhe da vida dessas maravilhosas que até emociona. No dia 23 do #julhodaspretas, vamos homenagear a cantora Elza Soares. Uma história muito sofrida está por trás dessa voz poderosa.

Elza da Conceição Soares é o nome de nascença da diva. Ela é carioca nascida em 1930. Teve uma infância muito pobre e aos treze anos de idade seu pai a obrigou a parar de estudar. Acabou se casando aos 14 anos e tendo seu primeiro filho na mesma idade. Em sua primeira apresentação artística, foi vítima de chacota e preconceito por sua aparência. No programa de Ary Barroso na Rádio Tupi, onde fez sua primeira apresentação ao vivo no auditório da emissora, o apresentador pergunta ironicamente: "De que planeta você veio?", ao que Elza respondeu: "Vim do mesmo planeta que o senhor". "E posso saber de que planeta eu sou?". "Do Planeta Fome". Ainda assim, Elza se destacou e recebeu as melhores notas.


Aos quinze anos de idade outro filho seu faleceu. Ela passou a trabalhar como encaixotadora e conferente em uma fábrica de sabão para sustentar a família enquanto o marido se recuperava de tuberculose. Aos 21 anos e 5 filhos, Elza ficou viúva. Começou a trabalhar como faxineira e empregada doméstica, profissões que exerceu por muitos anos. 

Aos 32 anos, com uma carreira consolidada conhece o jogador de futebol Garrincha. Em inicio de carreira, foi vítima de machismo. O fato de ele ser desquitado e ela com 5 filhos, geraram ataques da sociedade contra ela. Elza era xingada, ameaçada de morte, sua casa era alvejada por ovos e tomates. Ela era acusada de ser pivô do fim do casamento de Garrincha. Elza e Garrincha foram casados por 16 anos, de 1968 a 1982. Foi um casamento conturbado pelo ciúme e alcoolismo de Garrincha. Durante o tempo em que estiveram juntos, ela rodava os bares pedindo para ninguém dar bebida alcoólica ao marido. 

Mesmo com tantas histórias difíceis, Elza constrói uma carreira brilhante. Nos anos 70, Elza realizou uma turnê pelos Estados Unidos e Europa. Em 2000, foi premiada como "Melhor Cantora do Milênio" pela BBC em Londres.

O álbum Do Cóccix até o Pescoço garantiu-lhe uma indicação ao Grammy, em 2002. Em 2007, nos Jogos Pan-americanos do Brasil, Elza interpretou o Hino Nacional Brasileiro, no início da cerimônia de abertura do evento, no Maracanã. No mesmo ano, lançou o álbum Beba-me, onde gravou as músicas que marcaram sua carreira.

Em 2014, estreia o show A Voz e a Máquina, estando no palco apenas pelos DJs Ricardo Muralha, Bruno Queiroz e Guilherme Marques. No ano de 2015, Elza Soares lançou o seu disco A Mulher do Fim do Mundo, primeiro álbum em sua carreira só com músicas inéditas. Este ábum é premiado diversas vezes. Em 2015, vence o prêmio de melhor álbum no Troféu APCA. Em 2016, ganha como melhor álbum o Prêmio da Música Brasileira, o Prêmio Multishow de Música Brasileira e o Grammy Latino. Ela venceu também como melhor música - "Maria da Vila Matilde" - os mesmos prêmios. 

Aos 87 anos, apesar de já ter sua saúde debilitada, Elza Soares mostra que ainda tem muito a contribuir com a arte. 



VIVA ELZA SOARES

VIVA AS MULHERES NEGRAS!



No mês de julho vamos celebrar, conhecer, homenagear 31 mulheres no mês de julho! Sabemos que ainda é pouco, mas será um prazer rever a vida de algumas das nossas inspirações! Billie Holliday, Carolina Maria de Jesus, Elza Soares, Ella Fitzgerald, Chimamanda Ngozi Adichie, Sueli Carneiro, Taiye Selasi, Luiza Bairros... São tantas pretas maravilhosas que iremos homenagear! Não perca!!

Patricia Hill Collins: a mulher negra e feminismo (22/31)

Já estamos no 22º dia dos 31 dias do #julhodaspretas na Central das Divas. No dia de hoje, vamos falar da professora Patricia Hill Collins.

Collins nasceu em 1948, na Filadélfia, Pensilvânia. Collins estudou em escolas públicas da cidade que nasceu. Se formou em 1969 em sociologia na Universidade de Brandeis. Ela obteve o título de mestre na Universidade de Harvard, em 1970. De 1970 a 1976, ela foi professora de educação na Faculdade Comunitária St. Joseph, em Roxbury, Boston. Ela se tornou a diretora do Centro Africana na Universidade de Tufts, onde ficou de 1976 a 1980. 


Seus estudos de doutorado em sociologia foram realizados em Brandeis, em 1984. Ao obter o título, ela trabalhou como professora assistente na Universidade de Cincinnati no início em 1982.

Em 1990, Collins publicou seu primeiro livro, Black Feminist Thought: Knowledge, Consciousness and the Politics of Empowerment. Uma décima edição, revista, foi publicada em 2000 e, posteriormente, traduzida para coreano, em 2009. Atualmente, Collins ensina Sociologia da Universidade de Maryland, College Park.

Em 1990, Collins publicou Black Feminist Thought: Knowledge, Consciousness and the Politics of Empowerment, onde articula leituras de trabalhos do trabalho de Angela Davis, Alice Walker e Audre Lorde. De sua análise é possível inferir que as opressões de raça, classe, gênero, sexualidade e nação se interrelacionam, construindo mutuamente sistemas de poder. Collins utilizou o termo "interseccionalidade", originalmente cunhado por Kimberlé Crenshaw, para se referir a essa sobreposição simultânea de múltiplas formas de opressão.Também pode-se concluir que as experiências específicas das mulheres negras com a interseção de sistemas de opressão fornecem uma janela para os mesmos processos para outros indivíduos e grupos sociais.

O livro seguinte de Collins ganhou o Book Award da Associação Americana de Sociologia. Black Sexual Politics: African Americans, Gender, and the New Racism defende que o racismo e a heteronormatividade estão interligadas e que ideais de beleza atuam para oprimir os afro-americanos. 

Em 2006, ela publicou From Black Power to Hip Hop: Racism, Nationalism, and Feminism, onde examinou a relação entre nacionalismo negro, o feminismo e o hip-hop. Patricia deu uma enorme contribuição teórica para a compreensão do sistema de opressão que sofre a mulher negra.

VIVA PATRICIA HILL COLLINS!
VIVA AS MULHERES NEGRAS!




No mês de julho vamos celebrar, conhecer, homenagear 31 mulheres no mês de julho! Sabemos que ainda é pouco, mas será um prazer rever a vida de algumas das nossas inspirações! Billie Holliday, Carolina Maria de Jesus, Elza Soares, Ella Fitzgerald, Chimamanda Ngozi Adichie, Sueli Carneiro, Taiye Selasi, Luiza Bairros... São tantas pretas maravilhosas que iremos homenagear! Não perca!!

Gloria Rolando: as mulheres cubanas retratadas no cinema (21/31)

No dia 21 dos 31 dias do #julhodaspretas na Central das Divas vamos falar da diretora de cinema cubana Gloria Victoria Rolando. 

Gloria Rolando nasceu em Havana em 1953. Ela cresceu em meio à revolução, estudou música no Conservatório Provincial "Amadeo Roldan" e depois História da Arte na Universidade de Havana. Ela completou mais de uma dúzia de filmes e documentários sobre história afro-cubana. Alguns de seus trabalhos mais conhecidos incluem Eyes of the Rainbow (1997), um filme sobre Assata Shakur; Uma série de três partes sobre o massacre de 1912 dos membros do Partido Independente de Cor, intitulado Breaking the Silence (2010); E uma história da comunidade das índias Ocidentais no leste de Cuba, My Footsteps in Baraguá (1996).



Mas, é o seu documentário mais recente, Diálogo com a minha avó (2015), que fala diretamente às representações das mulheres negras na Cuba contemporânea. Com base em uma conversa que teve com sua avó, Inocencia Leonarda Armas y Abrea, em 17 de fevereiro de 1993, o documentário é uma mistura mágica da voz de sua avó, encantamentos religiosos afro-cubanos e narração de Rolando sobre momentos centrais no passado cubano. Levou mais de vinte anos para que Rolando transcrevesse as fitas em que ela gravou a conversa inicial e encontrou os fundos para tornar este produto final em conjunto com o Instituto Nacional do Filme Cubano (ICAIC). Em uma entrevista de 2016, ela admite que não tinha planejado usar a gravação. A cineasta e sua avó conversaram o tempo todo e esse dia, em 1993, não era diferente. Somente nos últimos anos, enquanto cuidava de sua mãe doente, Rolando decidiu que queria dar algo de volta às mulheres que haviam dado tanto a ela.

Uma das formas como o filme desafia os estereótipos negativos sobre as mulheres negras em Cuba é através do foco no trabalho e contribuições de sua avó para sua família e a nação como um todo. Enquanto Inocencia conta sua infância em Santa Clara e conta histórias de danças presentes em alguns dos clubes sociais negros mais conhecidos da cidade, a câmera flui para frente e para trás entre fotografias familiares e as mãos de um ator negro envelhecido agarrando um lenço. Repetidamente, a única imagem na tela é Rolando e as mãos de sua avó. Rolando disse: 

"Esta é uma história de muitas mulheres negras que lavaram, passaram a ferro e foram as bases das nossas famílias. É por isso que mostrei suas mãos; Por respeito pelas mãos que trabalharam tanto para construir uma família ".

O diálogo com sua avó também é um "diálogo espiritual" com ancestrais afro-cubanos. Apresentando as canções rituais de Boabab (Havana) e Obba Ilu (Santa Clara) do espiritismo cubano (espiritismo), o documentário começa e termina com uma mesa espiritual (mesa espiritual) onde os praticantes convocam os mortos para falar no presente: "Eu convido você a se juntar a mim em um diálogo com minha avó". O documentário é um contra-discurso para versões mais sanitizadas da história cubana que raramente falam sobre raça. Observando que sua avó foi a primeira a falar sobre os clubes sociais segregados que existiram em Cuba antes da revolução, Rolando destaca as tradições sociais e religiosas que muitas vezes de sua vida. Em particular, ela detalha um protesto racial em 1925 em Santa Clara que ocorreu quando os negros tentaram caminhar de um lado do parque que era proibido e os brancos responderam com violência (jogando cadeiras e atirando) a fim de parar as mudanças que eles temiam. Ao longo do documentário, Rolando recupera peças escondidas da história cubana com especial atenção para a vida das mulheres negras.

Mas, é a cena final do documentário que faz uma metáfora brilhante à ideia de Cuba como o campo de jogos dos Estados Unidos. Em uma voz parada, como imagens de minstrels de blackface em camisas e figuras de turistas de mulheres negras que fumam charutos disparam através da tela, Rolando conclui: 

"Há algo que não posso evitar dizer. Eles queriam distorcer muitas vezes a imagem da minha avó. . . Desde a época colonial, eles inventaram os padrões de uma indústria que não nos representa. Mas, infelizmente, muitas pessoas em Cuba e outros países também reproduzem e vendem essas irresponsáveis ​​versões coloniais. Por que essa imagem falsa e degradante da mulher negra? Por quê? Por quê? Por quê?"

Cada "por que" é pontuado por um ritmo rítmico e uma estatueta diferente que esmaga ao chão. Esta cena final que mostra as peças quebradas de um paraíso cubano que vende blackfaces a turistas e desvaloriza os corpos de mulheres afro-cubanas contrasta-se com a história da mulher que aparece no Diálogo com minha Avó. Rolando termina o documentário como começa: sentada em uma cadeira de balanço em frente à cadeira vazia de sua avó. Ela nos desafia como espectadores a decidir qual Cuba queremos ver. Enquanto você planeja sua viagem para a ilha, você só verá os carros e as meninas se exibindo, ou você se lembrará das mãos muitas vezes negligenciadas de muitas mulheres e homens de ascendência africana que construíram e continuaram a construir Cuba?



VIVA GLORIA ROLANDO!
VIVA AS MULHERES NEGRAS!




No mês de julho vamos celebrar, conhecer, homenagear 31 mulheres no mês de julho! Sabemos que ainda é pouco, mas será um prazer rever a vida de algumas das nossas inspirações! Billie Holliday, Carolina Maria de Jesus, Elza Soares, Ella Fitzgerald, Chimamanda Ngozi Adichie, Sueli Carneiro, TaiyeSelasi, Luiza Bairros... São tantas pretas maravilhosas que iremos homenagear! Não perca!!


Claudia Jones: a luta da mulher negra é uma ameaça à burguesia (20/31)

No dia 20 dos 31 dias do #julhodaspretas da Central das Divas, homenageamos Claudia Jones, mulher, preta e importante feminista. Claudia Jones não é muito conhecida no Brasil, mas na conferência da professora Angela Davis na abertura do curso de Black Feminism no dia 17 de julho de 2017 - disponível na íntegra neste link - ela foi amplamente citada, então a gente resolveu resgatar um pouco da biografia.

Claudia Vera Cumberbatch, nome de registro de Claudia Jones, nasceu em 1915 em Trinidad. Entretanto ela é radicada nos Estados Unidos da América, tendo se mudado com a família para este país ainda criança. Desde muito jovem ela se destaca nos estudos, tendo ganhado o Jones ganhou o Prêmio Theodore Roosevelt de Boa Cidadania em sua escola de ensino médio. Apesar disso, sua condição de mulher, negra e imigrante trouxe diversos impedimentos e dificuldades. Ao invés de continuar seus estudos, Jones começou a trabalhar em uma lavanderia e, posteriormente, no comércio, no Harlem. É quando ela se junta a um grupo de teatro e começou a escrever uma coluna chamada "Claudia Comments" para um jornal do Harlem.

Aos 21 anos ela se juntou à organização comunista Young Communist League USA. Na década de 1930, Jones foi editora do Daily Worker e do jornal mensal Spotlight. Após a II Guerra Mundial, Jones tornou-se secretária-executiva da Comissão Nacional das Mulheres, vinculada ao Partido Comunista dos Estados Unidos (CPUSA) e, em 1952, assumiu a mesma posição no Conselho Nacional da Paz. Em 1953, ela assumiu a direção da política associada a assuntos afro-estadunidenses.

Como resultado de sua participação no CPUSA e de várias actividades associadas, em 1948, ela foi presa e condenada, para o primeiro de quatro períodos de prisão. Detida na Ellis Island, ela foi ameaçada de deportação para Trinidad. Ela sofre um ataque cardíaco enquanto estava presa, sendo deportada em 1955. Com a entrada proibida em Trinidad, ela se muda para o Reino Unido onde fortalece a luta contra o racismo e o empoderamento da comunidade afro caribenha. No início da década de 1960, apesar de estar com a saúde abalada, Jones ajudou a organizar campanhas contra a Lei de Imigração 1876, o que tornaria mais difícil para os não-brancos de imigrarem para a Grã-Bretanha. Em 1958, ela fundou e tornou-se editora do jornal anti-imperialista e antiracista West Indian Gazette e Afro-Asian Caribbean News. O jornal foi um importante instrumento político na comunidade negra britânica. Jones também participou da campanha para a libertação de Nelson Mandela e denunciou o racismo no local de trabalho. 


Jones também contribuiu para a manifestação artística do povo afro latino caribenha em Londres, sendo uma das criadoras do Carnaval de Notting Hill.
Claudia morre precocemente, aos 49 anos, em casa, vitimada por um ataque cardíaco. Ela é enterrada em Londres, ao lado de uma grande referência: Karl Marx.

Claudia Jones deixa um importante legado teórico e prático. Anualmente, o Conselho de Membros Negros do Sindicato Nacional dos Jornalistas organiza um importante evento em memória a Claudia Jones, para celebrar sua contribuição ao jornalismo negro. Em 1982, é fundada a Organização Claudia Jones foi fundada em Londres, para apoiar e capacitar as mulheres e as famílias afro-caribenhas.

Seu texto mais conhecido foi publicado em 1949 na revista Political Affairs. "An End to the Neglect of the Problems of the Negro Woman!" já trás elementos do que hoje em dia chamamos de interseccionalidade por trazer elementos raciais, de gênero e de classe para discutir a situação de opressão das mulheres negras.


A burguesia tem medo da militância da mulher negra, e por uma boa razão. Os capitalistas sabem muito mais do que progressistas parecem saber que, quando as mulheres negras começarem a agir, a militância de toda a população negra, e assim da coalizão anti-imperialista, vai aumentar muito. Historicamente, a mulher negra tem sido a guardiã e protetora da família negra. [...] Como mãe, negra e trabalhadora, a mulher negra luta contra a destruição da família negra, contra as leis segregacionistas que destroem a saúde, a moral e a vida de milhões de irmãs, irmãos e crianças. Nessa perspectiva, não é eventual a burguesia estadunidense ter intensificado a opressão não apenas contra a população negra no geral mas contra a mulher negra em específico. Nada expõe mais a fascistização de uma nação quanto a atitude vil que a burguesia exibe e cultiva contra as mulheres negras.


VIVA CLAUDIA JONES!

VIVA AS MULHERES NEGRAS!




No mês de julho vamos celebrar, conhecer, homenagear 31 mulheres no mês de julho! Sabemos que ainda é pouco, mas será um prazer rever a vida de algumas das nossas inspirações! Billie Holliday, Carolina Maria de Jesus, Elza Soares, Ella Fitzgerald, Chimamanda Ngozi Adichie, Sueli Carneiro, Taiye Selasi, Luiza Bairros... São tantas pretas maravilhosas que iremos homenagear! Não perca!!